Viajar é preciso, é preciso.
Toda vez que o mundo me bate, eu fujo. Porque aprendi que fugir era uma forma de fugir das sintada do meu pai. Acabo de acordar de um pesadelo, eu havia brigado com meu irmão. E eu sabia que ia apanhar, entao tentei a fuga pelo portão da minha casa da infância na Rua Netuno. Eu consegui pular, mas meu pai venho atrás, e eu fugia, pulava de telhado a telhado, muros altos, e ele tentava agarrar meu pé. Aquele sentimento de pânico e conseguir fugir dali era como se fosse um respiro. Acordei no ápice do pesadelo, quando aquele sentimento estava mais aflorado. E ainda na frequência baixa, meu cérebro conseguiu resgatar algumas lembranças bem esporádicas, flashes, momentos curtos em que apanhei implorando que parasse, e ali deitado na posição fetal eu só elaborava formas de fugir daquele lugar. E os planos ocupavam minha mente e acompanhavam os devaneios dos meus pensamentos, quase como se fosse um filme que me distraia e me aliviasse minhas dores físicas e mentais.
Sei que meu pai fazia aquilo na tentativa de me ensinar algo. Sei que ele aprendeu a fazer desta forma. Nao tenho ranço e mágoa dele. Eu até defendia que algumas palmadas era importante. Mas não. Isso só me deixou com medo de errar, por mais que eu tenha tentado varias coisas, mas o medo de errar é forte quando estou na presença deles, é por isso que me sinto tão livre e tão eu quando estive longe, quando fui morar sozinho, por isso que busquei tanto minha independência, por essa liberdade é como se fosse um respiro.
E fugir foi a forma que sempre encontrei para resolver meus problemas. Não porque sou covarde, ou porque nao tenho coragem de enfrentar meus problemas, mas porque fugir se solidificou como a solução cinematográfica e idolatrada por minhas imaginações férteis enquanto chorava deitado no escuro do quarto. Tanto é que a última vez que fugi, tive ter muita coragem para deixar a familia que eu ajudei a construir para trás. Eu fugi porque aprendi a gostar dessa ideia.
E agora, estou mudando minha maneira de levar a vida, pulando de lugar a lugar, fugindo a cada um mês, porque esse constante movimento me faz me sentir livre.
Agora sabendo disso tudo, me pergunto, se ainda faz sentido essa grande viagem. Sim, estar em movimento me tira do conforto, limpas as teias que engessam minha personalidade, e me inspira ao me misturar com o resto do mundo. Por isso, ainda me faz sentido viajar. "Viajar é preciso, é preciso".
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